É ainda o primeiro capítulo. O pequeno se distraía com aquele dia como quem se distrai com deus. Um misto de felicidade e surpresa. Por que deus nos surpreende? E às vezes é surpresa boa, pensava consigo mesmo.
Mas este pequeno não era tão bem assim cristão. apenas um dia adotou esta palavra. Semântica carregada de tantas e tantas ideologias e suspenses: adotou. com firmeza. Ponto final. as complexidades que o invertem e o distorcem, assim aos poucos iremos descobrir nos reportando aos tempos passados, quando não era 2008 e quando nunca imaginava que chegaria ali.
(talvez nem nunca houvesse desejado, pela impossibilidade própria de vislumbrar o fato).
O feio sorriu algumas vezes, e foram esses sorrisos que eram as únicas provas que o pequeno tivera para interpretar: acho que ao menos gosta de mim. E todo aquele ódio imaginado longe daqui, de fato, passou.
É que o pequeno por anos tivera essa impressão. E impressão, sendo algo fincada, é coisa de ser realidade também.
Ao chegar em casa, início da noite e uma gata, malhada e de bigode, que ele tanto sonhou em ter, lhe fora dada de presente. Um dia inesquecível.
Falaremos da gata mais tarde, pois por enquanto ela não tinha nome e nem teria por longos dois meses de êxtase - há êxtases que duram isso? Pensava o pequeno. Sim, havia. Porque ele os viveu.
Pequeno mas não frágil, começamos a defini-lo, e o personagem principal da história talvez tivesse condições de se autoproclamar alguma coisa vitoriosa. mas não. Tinha um sucesso de fracassos burlado por seus escritos, enfeitados por seu corpo magro e ao mesmo tempo cheio de delicadezas que a muitos provocavam o medo: é duvidoso um corpo que se esgueira, que faz silêncio nos passos, que muitas vezes ainda mesmo adulto se esconde por detrás dos móveis.
Dizem que pouco antes de se conhecerem, há quatorze anos, houvera uma troca: o pequeno era algo tímido e de repente, não aos poucos, de repente acordou agitado. Era a agitação prévia dos encontros marcados - que a gente sempre desconhece.
O feio que era um rapaz sociável e até muito bem relacionado: este se introjetou num receio profundo ou num pressentimento vago de algo estava por vir, não calculou, nem conseguiria, de que não era algo, mas alguém. E alguém, por ser vivente, traz seus perigos constantes.
Algo-faca, por exemplo, enferruja.
A gata tinha poucos meses e parecia ter gostado tanto de seu dono que não sentiu a necessidade de um nome imediato. O nome viria, ele pensou, quando fosse batizada. A gata, seria batizada com um nome francês, pensou, pois era francês seu tipo de amor.
Sem dúvida ele acreditou que ao final da tarde um ciclo se fecha, e ao cair da noite a gata trazia o início de tudo que é: por assim dizer: um novo conto de mistério, numa mesma história continuada.
Viveu dois meses, como eu já disse, em um êxtase. Mas equilibrado porque agia e vivia como todos os outros dias sem que ninguém soubesse. Não precisavam saber da sua alegria. Era um tipo de alegria até nova pra si mesmo que vivera 30 anos em si mesmo: a alegria não-compartilhada.
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